A história a seguir é um caso real, publicado na revista "Seleções", da Reader's Digest, em setembro de 1998. Autor: Jerry MacDonald
BCRailway - GE C40-8M -Dash 8-40CM nº 4618 em Sqamish, British Columbia, Canada, em 17-08-1996. Foto de Mike Nyiri. A locomotiva acima é a retratada na história.
"Depois de andar cerca de uma hora, a menina repousou a cabeça entre os dormentes e descansou"."Locomotiva 4.618, fomos avisados de que uma criança de 3 anos está perdida. Por favor, fiquem alertas!""Ele teria de saltar à frente do trem, agarrar a garota e atirar-se com ela para longe da locomotiva"...HAVIA sinais de chuva no ar quando Sandra Campbell, 32 anos, entrou com sua van na estrada da propriedade rural da família, nas proximidades de Stoner, Columbia Britânica, Canadá. Após a manhã de compras, estava ansiosa para colocar Bevin, 7 meses, e Keely, 3 anos, para dormir.
No fundo da van, Jory e Alden, 6 e 5 anos respectivamente, davam gargalhadas enquanto brincavam com uma janela automática. A van passou sobre um buraco e alguns dos itens caíram na estrada. Como faltavam somente cem metros para chegar em casa, Sandra preferiu deixar os garotos e Keely em casa, e depois voltar para buscar as compras.
- Mamãe já volta - gritou Sandra para as crianças - Só vou apanhar as compras que caíram do carro.
A casa fica próxima a Rodovia 97 e à linha principal da Ferrovia da Colúmbia Britânica. As crianças conheciam os limites de sua área de brincadeiras ou, pelo menos, assim pensava Sandra.
Quando voltou, minutos depois, as crianças correram ao seu encontro chorando. Não ouviram quando a mãe lhes disse aonde ia e tentaram encontra-la no final da estrada. Depois de alguns abraços e beijos, todos entraram em casa. Tudo parecia silencioso demais.
- Keely - chamou Sandra. - Keely, onde está você, querida?
Nenhuma resposta. Sandra foi de quarto em quarto e, em seguida, retornou aos degraus da varanda de entrada. Ela não poderia ter ido longe.
Mas à medida que o tempo passava naquela quarta-feira, e Sandra não tinha sinal da filha, um nó de medo formava-se em seu estômago.
Jory e Alden contaram que Keely estava com eles quando correram ao encontro da mã, e se movimentava por entre as árvores do bosque quando a viram pela última vez. Sandra verificou a vizinhança. Ninguém estava em casa.
Eram duas horas da tarde quando telefonou para o marido: "Keely está desaparecida!" Brock engoliu em seco. "Estou indo para casa."
A seguir, Sandra discou o número de emergências. "Fique em casa", instruíram-na, caso Keely retornasse. A ajuda estava a caminho. Já se haviam passado 35 minutos desde que Sandra entrara na estrada de sua propriedade.
NO PÁTIO da estação de Prince George, a locomotiva 4.618 estava prestes a arrastar seus 61 vagões na longa jornada até Vancouver. Aquela era uma viagem que o maquinista Ron Andersen, 61 anos, e o guarda-freios Merv Peever, 63 anos, haviam feito centenas de vezes.
Tinham acabado de partir quando o despachante ordenou que parassem. Britas estavam caindo de uma das 17 gôndolas da composição.
Enquanto esperavam o fim da revisão dos vagões, Peever e Andersen conversavam. Homem alto e esguio, Peever era um ferroviário veterano. Agora, ele e a esposa Joyce, pais de oito filhos crescidos, aguardavam a aposentadoria.
Ao contrário de Peever, o companheiro Anderson era atarracado, cheio de histórias e piadas. Sua gargalhada estrondosa enchia a cabine da locomotiva.
Às 13h25, a inspeção chegou ao fim. Eles teriam de compensar o tempo perdido se quisessem chegar no horário. Caso tivesse partido na hora normal, a 4.618 estaria passando pela casa dos Campbell no momento em que Sandra discava 911.
KEELY lembrou-se da mãe dirigindo pela estrada, enquanto Jory e Alden corriam em seu encalço. Ela tentou se juntar às outras crianças, porém o agasalho ficou preso na cerca de arame farpado que circunda a propriedade da família. Quando conseguiu se libertar, Jory e Alden já não podiam ser vistos.
Decidiu, então, seguir a linha do trem. Sabia que aqueles trilhos a conduziriam até Prince George, onde o pai trabalhava e aonde a mãe parecia ter ido.
O TREM atingiu a velocidade de cruzeiro através de um bosque interminável de coníferas. às 14h13, Peever e Anderson preparavam-se para tormar café quando uma voz soou no sistema de auto-falante da locomotiva: "Locomotiva 4.618, fomos avisados que uma criança de 3 anos está perdida na área entre Stoner e Red Rock. Por favor, fiquem alertas na tentativa de localiza-la".
Já haviam feito aquela viagem tantas vezes que conheciam cada fazenda, cada sítio e quais eram aquelas que tinham crianças.
- Aposto que é um daqueles moleques que brincam na colina, ao lado da linha perto de Red Rock - comentou Anderson.
Logo em seguida, o maquinista, pressentindo algo, apanhou o rádio para falar com Peever.
- Vamos diminuir a velocidade - disse - Vamos viajar a 7 ou 8 km/h, por enquanto... só por precaução.
Minutos após o aviso, a 4.618 chegava a Red Rock. Não havia qualquer sinal de criança. Anderson aplicou várias libras de ar aos freios de todos os vagões. Se a locomotiva precisasse parar de repente, os freios estariam quentes. Isso reduziria o inevitável impulso, violento e brusco, que sempre acontece quando se tenta parar 4.900 toneladas de carga em pleno movimento.
A mente de Peever começou a girar, enquanto comparava a criança a seus netos.
E se essa criança fosse minha? Pelo que estaria eu passando agora? Seus pensamentos voltaram-se para 13 de novembro de 1981, quando um companheiro foi esmagado entre dois vagões de carga em Lillooet, Colúmbia Britânica. Peever lembrou-se do momento em que, às 4 da manhã, o segurou nos braços. Recordou-se dos olhos do homem e de como a vida simplesmente desapareceu.
Por favor, meu Deus, não deixe que isso aconteça de novo.KEELY não conseguia se lembrar de ter sentido tanto frio assim antes. As arestas cortantes das pedras britadas do lastro da via férrea feriam-lhe os pés calçados só de meias. Após andar cerca de uma hora, ela repousou a cabeça sobre os dormentes manchados de óleo e descansou.
DEPOIS DE PASSAR pela propriedade dos Campbells, o maquinista da 4.618 pensou em voltar à velocidade normal. Eles estavam, agora, além da área onde a criança fora vista pela última vez. Ela não teria atravessado a ponte da ferrovia.
Entratando, Anderson não acelerou. Quando o trem começou a fazer uma curva lenta, Peever e ele viram algo sobre os trilhos bem à frente.
- O que é aquilo? - gritou Peever. - Você está vndo? Parece um monte de trapos.
Anderson procurou o botão vermelho da buzina e o pressionou várias vezes. Os "trapos" se moveram.
- Lá está ela! - ambos gritaram.
As mãos de Anderson moveram-se como um relâmpago, pressionando outra vez o botão da buzina. Ao mesmo tempo, ele acionou o freio de emergência, desligando os motores e travando centenas de freios nas rodas.
Entretando, parar um trem cargueiro de um quilômetro de comprimento requer muito espaço. Neste caso, pelo menos cem metros seriam necessários.
Quando Anderson e Peever avistaram Keely, ela estava a uns 200 metros de distância. Ela tentou se levantar, mas só deu alguns passos para o lado dos trilhos e se agachou. A mente de Peever disparou.
Outra vez não, meu Deus, outra vez não! Ele sabia que não conseguiriam para a tempo.
Rapidamente, Peever desceu os três degraus que separavam a cabine das duas portas de aço que conduziam à parte da frente da locomotiva. Quando abriu a segunda porta e agarrou-se ao corrimão, seus olhos estavam fixos na criança.
Ele teria de saltar à frente do trem, de alguma forma agarrá-la e, em seguida, atirar-se com ela para longe da locomotiva. Se a menina tropeçasse, ele também poderia morrer.
Na cabine, Anderson tentava ganhar segundos preciosos, puxava outra alavanca e invertendo a marcha do trem. O som das rodas contra os trilhos, assim como o barulho do motor tentando empurrar o trem na direção oposta, era ensurdecedora.
No mesmo instante, Peever saltou da escada. A garota girou a cabeça e Peever pôde ver a expressão de terror em seus olhos. Ela estava de pé.
Quando Anderson olhou pela janela, viu os braços do amigo tentando alcançar Keely.
Peever só tinha consciência de seus braços esticados, que não conseguiam pegar a garota. Keely havia se movido. Caindo com o rosto sobre as britas do lastro da ferrovia, Peever rolou e tentou alcançar a menina. Ele sentiu Keely em contato com sua mão.
Ao rolar pelo aterro de dois metros de altura, Peever agarrou-a pelo agasalho e, desesperado, deu um puxão. Mas ao rolar, Peever não conseguiu ficar agarrado à criança. De costas, olhou para cima e viu o rosto de Anderson passar rapidamente contra o céu.
Enquanto os 20 metros da locomoitva passavam a seu lado fazendo um ruído ensurdecedor, Keely permanecia sentada a poucos centímetros dos trilhos. Sua cabeça moveu-se de forma inesperada para a frente, como se um dos tanques de combustível a tivesse atingido no rosto.
Peever subiu depressa, engatinhando pelo aterro e pelo lastro da via férrea, com as britas cedendo sob seu peso, em direção a Keely. Quando alcançou a garota, segurou-a nos braços e afastou-a do trem, que ainda guinchava nos trilhos.
As mãos e os pés de Keely estavam frios como gelo. Havia um filete de sangue quente fluindo de sua cabeça.
Quando a composição finalmente parou e Anderson desceu correndo, Peever reuniu toda a sua coragem para olhar nos olhos de Keely. Sujeira e óleo haviam se misturado com o sangue na face. Lágrimas escorriam-lhe no rosto. Houve um interminável silêncio.
Keely falou, então, as quatro palavras mais bonitas que Merv Peever já ouvira: "Eu quero minha mamãe!"
Anderson e Peever sorriram.
- Você consegui, meu camarada! - exclamou Anderson. - Não sei como, mas por Deus, você conseguiu!
Os olhos de Peever se encheram d'água quando agradeceu a Deus pelo milagre.
Subindo a bordo do trem, o abalado Anderson falou pelo rádio: "Aqui fala 4.618. A criança foi encontrada. O guarda-freios Peever teve de saltar e agarra-la. Ela apresenta uma pequena inchação na cabeça e um corte atrás da orelha, que talvez necessite de alguns pontos. Mas ficará boa".
QUANDO O CARRO da Polícia se aproximou da casa dos Campbells, Brock e Sandra viram Keely sentada no banco da frente. Eles começaram a correr pela estrada e as manifestações de preocupação estampadas em suas faces foram transformadas em expressões de total alívio e alegria.
NOVI DIAS DEPOIS, no jantar anual da Ferrovia da Colúmbia Britânica, Peever e Anderson foram homenagiados. Ali, os Campbells puderam externar sua gratidão.
Os lábios de Sandra estremeceram quando olhou nos olhos de Merv Peever. Os dois se abraçaram como se fossem velhos amigos. Um murmúrio percorreu o salão ocupado por 200 convidados. De repente, todos estavam de pé, aplaudindo calorosamente o encontro. Kelly escondeu o rosto no ombro do pai. Ela não estava segura sobre "aquele homem que me bateu".
Ao receber a placa em homenagem a seu ato, Peever retirou os óculos e esfregou os olhos.
- Milagres acontecem porque ainda cremos neles - disse. - E sou um daqueles caras que acreditam, porque já os vi acontecer muitas vezes. Os anjos estavam com aquela garota. Por isso ela está viva hoje.
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